terça-feira, 25 de novembro de 2014

Presos no Vício da Globalização.

     A internet é encarada hoje em dia como um vício para muitos, onde jovens se encontram presos nesses laços imaginários que ligam uma rede social à outra. Todo dia sentimos necessidade de estar presente nesse universo cibernético para compartilhar nossos sentimentos com o próximo, seja através de fotos ou postagens, mas muitas vezes esse comportamento exagerado nas rede sociais pode ser encarado com uma forma de lidar com a solidão ou a tristeza. Por outro lado sabemos que esse novo mundo trouxe facilidades por meio da globalização, onde atividades hoje em dia podem ser concluídas no conforto das nossas casas e nosso relacionamento com o mundo está mais aberto e ativo do que nunca. Temos a facilidade de conversar com pessoas de outros países sem andar no máximo até a nossa geladeira para buscar um lanche, por exemplo. Essa linha tênue que abrange o vício, carência de atenção das redes sociais e a facilidade relacionamento, de acesso à informação que a internet nos trouxe deixa muito a se refletir, pois é algo tão novo e impactante que realmente não nos adaptaríamos novamente a sobreviver longe dessa tecnologia. Temos que ter em mente que nossa evolução como sociedade necessariamente depende desse remédio cibernético e claro que, como todo remédio, o vício nos cerca esperando qualquer brecha emocional para surtir efeito.

Alexandre Menezes Xavier.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Mal que Assombra


Sim, temo as lembranças que assombram
Aquelas que me tomam acossado
De mãos atadas por se tratar
Sim de outro livro aberto e não do nosso já queimado.
É aquela que ainda enseja o medo apressado
Que por uma cisma o tal não esteja encerrado
Pois quero-te afastado, mal que assombra,
Passado que impiedosamente ronda
A sombra de quem queremos ao nosso lado.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

De Certo Me Lembro.


Meu mar de lembranças
Que sozinho me afago
Pouco recordo
E tampouco descordo
Das memórias que tive
E que hoje não guardo.
Mas espera um momento...
De certo me lembro!
De uma vez no relento
Onde naveguei solitário
Sem você ao meu lado
E soprei como o vento...

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Leitor de Mentes #5

 
Senti uma pedrada no rosto me levando ao chão. Tive um pequeno blackout quando bati a cabeça na calçada mas pude ver algumas gotas de sangue que cuspi no impacto. Então levei a mão ao rosto para limpar o fio de sangue que escorria levemente ao lado da boca e meus sentidos começaram a voltar, formando a silhueta de Bernard, que estava parado na minha frente com o punho fechado e um olhar de quem ainda não estava satisfeito.
- Some daqui - Disse ele, se contendo para não carimbar o outro lado da minha outra face - E nunca mais volte.

Procurei com as mãos algo para me apoiar e levantar, pedindo para ele esperar pois precisava de sua ajuda. Eu sabia que sozinho não tinha chance de encontrar Janie nem por onde começar, então resumi a história e fui direto ao ponto.

- Ta brincando com a minha cara? - Falou Bernard depois de escutar sobre meus poderes e Janie. - Depois de tudo tu ainda vem aqui pedir ajuda? Espera, o mundo da voltas, não?

- Sim... Eu percebi. Mas olha, eu pago o que for preciso, eu tenho dinheiro! Eu só preciso que você entre nos meus sonhos com seu poder e descubra algo a mais da Janie naquela noite na boate. Eu sempre sonho com esse momento. - Respondi.

Eu vi ele fechar o punho e partir em minha direção para outra "pedrada" mas foi interrompido por um cara bem vestido. O sujeito viera acompanhado de alguns indivíduos carrancudos cobrar um dinheiro que a família tinha pego emprestado e não havia pago ainda. Percebi que a situação fugia do controle de Bernard quando o cara, que parecia ser o chefe do grupo, mandou os dois maiores agarrarem meu amigo, levar para o carro e em seguida mandar o restante buscar a mulher dentro da casa.

- Calma aí! É dinheiro que você quer? Aqui, leva, eu tenho bastante! Tenho muito mais, mas não está comigo. Não precisa levar ele! - Gritei, abrindo a carteira e atirando toda nota de cem dólares que meus dedos encontravam em seu interior.

O sujeito me olhou de baixo a cima e mandou um dos brutamontes recolher as notas, percebeu que eu era a única maneira dele recuperar o seu dinheiro. Logo em seguida ele mandou que soltassem Bernard e deu um novo prazo para ele devolver o restante que faltava da dívida. Depois do ocorrido sentamos no meio fio onde aquele clima pesado ainda pairava, mas agora Bernard apoiava o rosto nas mãos, com um olhar fixo ao chão, sem saber o que fazer. Quebrei o silêncio daquele momento perguntando quem era aquele cara e o que tinha acontecido, mas ele respondeu com mais silêncio. Eu disse que poderia ajudar, queria reparar meu erro, fazer o mínimo que eu deveria e ele seguiu sem abrir a boca.

- Eu sei que você está pensando em aceitar minha ajuda por estar sem saída sobre essa situação. Aquele agiota é não é nenhuma flor que se cheire, tu não deveria ter aceitado ajuda quando ele bateu na tua porta. - Falei.

- Meu Deus, e tu queria que eu fizesse o que!? Seriamos despejado se não terminássemos de pagar a casa! - Exclamou Bernard. - Depois de tudo o que acon... Espera, como tu sabe disso?
- Eu leio men... Olha, pegue esses meus cartões de crédito, vou virar de costas e vou saber qual deles você segura com a mão direita. Se eu errar, eu te dou o dinheiro e nunca mais volto. Caso eu acerte, eu pago sua dívida e você me ajuda a encontrar Janie. Você vai ter o seu dinheiro da mesma forma, Bernard.

Ele pensou um pouco sobre o que eu tinha dito mas aceitou, precisava do dinheiro, eu sabia, e também queria se ver livre de mim. Bernard  pegou os cartões enquanto eu me virava e os colocou no bolso.

- Então, qual deles estou segurando? - Disse ele.

- Você pensou em segurar o azul, mas então depois decidiu colocar todos no bolso.

- Então você realmente lê mentes?

Bernard se levantou e me devolveu os cartões, ainda não acreditando muito no que acabara de acontecer, mas para ele acordo era acordo. Ele não pensou em argumentar porque de uma forma ou de outra, ia pagar todas as suas dívidas que vieram por minha causa. Não esperava que ele esquecesse do que rolou mas naquele momento eu percebi que eu tinha uma chance de rever Janie e reparar alguns erros do passado. Mas eu estava ciente de que havia muita coisa ainda pela frente.


Continua...

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O Pântano.



- Senhor, hoje eu comecei a pensar em coisas que aconteceram comigo nesses últimos dias e nas pessoas que conheci. A verdade é que sempre fico com medo de cometer os mesmos erros de pessoas que conheço...

- Garoto... Sente-se aqui e observe bem essa floresta que está a sua frente, nela existe um pântano.

- Eu sei, mas o que isso tem a ver com o que eu acabei de dizer? Quer saber, esquece... Vamos entrar, está muito frio aqui fora.

- Espere um minuto e me responda: Caso você se perdesse no pântano por anos, como faria para sobreviver nessa escuridão?

- Eu levaria uma lanterna comigo, senhor.

- Ela um dia vai falhar, você sabe, não é?

- Sim, mas eu não sei... Com o tempo eu me acostumaria, eu acho, e saberia o que fazer.

- Deixe-me dizer uma coisa, a vida é como um pântano, cheio de mistérios, perigos e desafios, e lá estamos, com uma lanterna iluminando o caminho. Chegará uma hora em que ela vai falhar, esse apoio vai deixar de existir, vamos ter que lidar sozinhos com o que está a frente, procurando por troncos para agarrar e nos tirar de toda lama e buraco que ficarmos presos.

- Ainda não consigo entender...

- O que eu quero dizer com essa comparação é simples: Não temos como escapar desses desafios, por mais que nos digam por qual caminho seguir. Apenas vamos aprender onde devemos pisar, após experimentar cada situação. Você vai absorver isso com a experiência e assim com o tempo vai perceber, sem o auxílio da lanterna, onde é que deve pisar ou não. Agora vamos entrar, realmente está muito frio.


- Senhor, espera! Mas como vou saber quando a minha lanterna falhou?

- Quando você cometer o seu primeiro erro.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Decisões


G                            R 
Nesse mar de escolhas
                              Em 
que hoje eu atravesso
                              
 com medo de afundar

 G                            R 
Procuro um modo sorrir
                      Em
 tentar emergir
                            C
 E não me entregar

C#m                                 Bm 
Será que um dia vou aprender

 Que o que acontece
 Bm 
é pra valer

C#m                                  Bm 
 Será que um dia vou aprender

 Que devo ser forte
Bm 
E não estremecer
 F                                    Fm 
Não quero deixar para depois
                                             E
 O que tiver que ser feito, pois
                                 Am 
Tenho medo de fraquejar
 F                                         Fm 
Preciso de um conselho ou dois
                                 E 
 Um copo de vinho, pois
                               Am 
Tenho decisões a tomar...

domingo, 3 de agosto de 2014

A sina do Bardo


Nesse caminho estreito
dançando dedos pelo alaúde
sigo solitário sem destino
para o meu próprio deleito

Brinco com as palavras
histórias não contadas
presente em versos compilados
nas curtas canções desse bardo

Mal vestido, maltratado
Porém meu único defeito
sigo solitário sem destino
para o meu próprio deleito

Sentado frente à fogueira
sob noite passageira
a bela canção ali estala
nessa dança de verso e brasa

Então lhe digo, meu amigo, aqui o bardo se encontra
com sua música e melodia, atravessando a noite fria
para noutro dia após descanso
seguir rumo à folia

E na cidade mais próxima ao chegar
em uma taverna úmida se sentar
ao som de canecos se batendo
mais uma poesia recitar

Essa é minha sina, minha glória
Um jovem contador de histórias
presente em versos compilados
nas curtas canções desse bardo.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

23 Dias

Apesar de tudo, dos ferimentos, do medo e da fome eu achei
uma forma de espantar a solidão e tentar me aproximar novamente
de você. E é engraçado como em questão de minutos nosso mundo vira
do avesso e imploramos todos os dias por aquilo que não acreditávamos,
buscando uma saída, uma luz, pois não existe mais a quem recorrer.
Eu não achei que iria sobreviver ao naufrágio mas cá estou eu,
deixado à própria sorte em uma pequena extensão de terra ao sul do mar
mediterrâneo. No quinto dia nesse lugar eu acabei encontrando
algumas caixas e pedaços do veleiro, nada de muito valor, mas dentro
de uma das caixas estava o seu diário. Infelizmente o caderno estava
quase todo destruído mas haviam ainda algumas folhas em branco que
não estavam rasgadas e a caneta presa em seu interior funcionava
perfeitamente. Tomei coragem para escrever algo apenas no sétimo dia.
As folhas já estavam secas e o tédio me consumia, então pensei em
começar a gravar em suas páginas os dias que se passavam na ilha
com a esperança de em algum momento devolver ele a você.
Nos primeiros dias achar comida não foi difícil, haviam muitas frutas e cocos
por perto mas não eram o suficiente, tinha que aprender a pescar,
o que deu muito trabalho. Ao chegar ao décimo dia eu dei conta que
um dos ferimentos na minha panturrilha estava piorando ao tirar a
atadura, o que foi um choque para mim. Estar em um lugar sujo sem
nenhum tipo de medicação foi crucial para aquela ferida não começar
a cicatrizar. Acho que estou há 15 dias nesse lugar mas ainda tenho
fé que alguém vai aparecer. Dois dias atrás eu comecei a rezar,
algo que nunca tinha feito pois nunca acreditei que funcionasse.
É complicado falar sobre isso porque não tenho mais escolha, talvez
esteja aqui não por acaso, mas sim por vontade de algo maior,
para pagar meus pecados. Loucura? Sim, eu estou começando a falar
com pedras e árvores, talvez esteja mesmo ficando louco.
Hoje é o 18° dia, minha filha, e eu não aguento de saudade. Estou morrendo de
vontade de te ver, saber como você está, afinal hoje é seu
aniversário de 13 anos e eu não estou ao seu lado. Infelizmente
reparei que minha ferida começou a gangrenar, talvez tenha que
amputar até a altura do joelho para não acabar acontecendo algo pior.
Minha flor, 21 dias e eu estou ficando sem forças para escrever.
Se em algum momento você puder me desculpar por não ter sido um
ótimo pai me faria muito feliz, pois sei que deveria ter ficado mais
tempo ao teu lado. Ontem eu resolvi amputar minha perna com um
pedaço de aço do barco que encontrei na praia, não tinha escolha,
isso iria me dar mais alguns dias de vida até que algum barco
aparecesse para ajudar o papai. Por mais que eu reze, parece que
ninguém vai me ouvir.
22 dias e eu não como desde ontem, estou
com muita febre e completamente sem forças. Estou encostado em uma
pedra com minha camisa enrolada no que restou da minha perna para
estancar o sangramento, mas acho que perdi sangue demais.
Não sei quanto tempo vou aguentar, meu amor, pois este é o 23° dia, mas
quero que saiba, papai te ama muito e pensou todos os dias em você.
Quero que você estude, o que espero que você já esteja fazendo,
para um dia se tornar alguém independente. Quero que você cuide da
mamãe e da vovó, e não dê preocupações. Te desejo toda a felicidade
do mundo e que um dia encontre um rapaz que te dê paz e
tranquilidade. Talvez a partir de amanhã eu não escreva mais,
meu anjo, mas não se preocupe, logo logo papai vai estar em casa com
você. Ele só precisa descansar um pouco pois está exausto e a tinta
da caneta está acabando.

Isso, a tinta da caneta está acabando...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Leitor de Mentes #4


Eu não dei conta que tinha me tornado um imbecil depois que comecei a dominar meu dom. O reconhecimento e a fortuna foram consequências disso mas em troca me tornei um pretensioso. Será que essas duas coisas são capazes mesmo de mudar as pessoas ou depende da fraqueza psicológica de cada um? Será que toda pessoa que sempre sofreu dificuldade financeira é novamente moldada pela fortuna ou apenas aquelas que deixam ser dominadas pelo mesma? Bom, eu fui dominado, me entreguei à ganância. Quanto mais dinheiro eu ganhava, menos eu dependia das pessoas que me cercavam. Amigos era o que não me faltava, justamente aqueles “amigos” que te cercam por causa do teu sucesso, então acabei esquecendo dos verdadeiros. Tive várias namoradas, uma em cada mês, praticamente, todas lindas, ricas e filhas de grandes investidores. Então acabei esquecendo minha família.

Aos 19 anos eu fiz uma viagem rápida pra capital e participei de alguns jogos de poker aonde fiz vários contatos. Acabei virando noivo da filha de um jogador de poker que eu arranquei uma boa quantia. Ele viu futuro em mim, então acabei conseguindo um “amigo” nesse ramo e logo após, um sogro. Eu morava apenas com meu pai, então deixei uma carta e me mudei definitivamente para a humilde mansão do meu novo amigo. Ele investiu em mim me apoiando em torneios e me ensinando alguns truques. Ganhamos até 1 milhão e meio nessa parceria e eu queria cada vez mais. Acabei torrando uma boa parte em festas onde conheci várias meninas, uma delas acabei casando em uma viagem para Las Vegas mas a sorte é que deu para anular. Claro que o noivado com a filha do meu investidor deu em merda e então estava na capital por minha conta, sozinho, jovem e milionário.

A ganância foi tomando conta de mim, eu não sabia a hora de parar, queria cada vez mais, devorando o prazer. Consumindo festas, roupas, mulheres, carros, viagens como se fossem água. Em um ano eu já era bem conhecido, Daniel Hook, o futuro do poker. Resolvi investir meu dinheiro e não apenas torrar, mas sim duplicar, triplicar, pois uma das coisas que aprendi era que dinheiro não aceita desaforo, digamos assim. Aos 22 eu já tinha uma empresa de aplicativos e jogos de poker online bem conhecida. Tinha muitos funcionários e na verdade passava meu tempo aproveitando a grana do que ajudando na empresa Hook, por isso eu tinha a Charlotte como minha secretária. Ela administrava a minha empresa e qualquer problema repassava pra mim, ou melhor, resolvia sozinha porque eu nunca dei importância pros problemas da empresa. 


Havia um faxineiro funcionário que faleceu após sofrer um acidente no elevador da empresa. Há algumas semanas atrás ele trancara com algumas pessoas dentro. Eu sabia que ele estava com problemas mas como sempre, negligenciei. Deixava tudo para Charlotte resolver, e claro que ela não era capaz de resolver tudo, haviam milhares de problemas na empresa. O filho do funcionário entrou com um processo contra a empresa mas eu podia contratar os melhores advogados do país então não foi problema ganhar a causa. Além de ganhar eu entrei com perdas e danos e fechei todas as portas de emprego para a família. Acabei com aquele garoto insolente que queria tirar proveito da situação e arrancar meu suado dinheiro, era essa minha mentalidade. Ele apenas queria o que era justo pois seu pai era a única pessoa que sustentava a família, e eu o matei por pura negligência. Após a morte do seu pai e as enormes dívidas da família sua mãe suicidou-se, o deixando com a irmã, sua tia.

Essa história estava estampada na testa do Bernard enquanto me fitava com ódio. Eu tinha esquecido de como ser generoso, de ser amável, esqueci da honestidade, esqueci da minha família e dos meus amigos. Amigos de infância, amigos verdadeiros, aqueles que eu sempre pude confiar. E Além disso eu acabei com a família do meu melhor amigo de infância e não me dei conta do que estava fazendo. Agora a única pessoa que poderia me ajudar nessa busca pela Janie me odiava mais que tudo no mundo e eu estava sem saída.

Continua...

domingo, 13 de julho de 2014

O leitor de mentes #3

Eu precisava de um ponto de partida, todos nós precisamos começar por algum lugar, esse é o único jeito de chegarmos aos nossos objetivos. Meu objetivo sempre foi encontrar Janie, eu sentia sua falta, precisava de qualquer maneira rever aquela mulher. Percebi que sozinho não seria fácil, pois não sabia nada mais além do seu nome. Lembrei de um velho amigo que poderia me ajudar. Eu sabia que ele não era normal, tinha algum talento como eu e a Janie que poderia me ser muito útil. Fazia anos que eu não o via, nunca liguei, nunca tentei qualquer tipo de contato, pois naquela época eu não ligava para mais ninguém além de mim, alimentando sempre o rei que tinha na barriga.

Eu fui até minha antiga escola e falei com a atual diretora da instituição alegando que precisava rever um antigo amigo e necessitava do endereço que constava na sua ficha de aluno naquela época. Ela se recusou, disse que era contra a política da escola divulgar dados sobre os antigos alunos para desconhecidos mas enquanto ela dava desculpas eu lia cada pensamento que vagava pela sua mente. Ela  deu uma breve olhada para a tela do seu computador enquanto falava, buscando algo, e deixou escapar palavras soltas em seu pensamento como: "Segurança123", "PastaALUNOS_2004" e "Desktop". Eu li essas palavras que estavam estampadas em sua testa, aceitei seu discurso e fui embora.

Quando caiu a madrugada eu dei um jeito de invadir a escola, li a senha do alarme que vagava pela mente do segurança e o desliguei. Sem muito trabalho entrei na sala onde estava o computador da diretora. Busquei pela área de trabalho alguma pasta chamada "Segurança123" ou "PastaALUNOS_2004". Estava facilmente visível a segunda opção, logo acima da lixeira. Cliquei na pasta e abriu um campo para digitar uma senha, presumi que seria "Segurança123" e então o fiz. Passei os olhos na lista de nomes procurando por Bernard Johnson e então o achei. Anotei todos os dados em um bloco de notas, desliguei tudo e vazei daquele lugar.

No dia seguinte peguei o meu carro e saí pela cidade tentando encontrar o endereço que tinha anotado. Ele me levou até a periferia da cidade, um lugar pobre e sujo. A minha maior preocupação naquela hora foi deixar o meu Jaguar C-X16 estacionado nas ruas daquele lugar, me tornei muito materialista, arrogante e esnobe quando ganhei meu primeiro milhão nas mesas de poker. Desci, fui até a residência, bati na porta e quem me atendeu foi uma mulher. Percebi que poderia ser mãe dele quando li seu pensamento sobre mim: " Deve ser mais um dos amigos folgados do Bernard, só que esse tem cara de metido. Diabos, pelo jeito vou ter que fazer almoço pra esse aí também". 

Ela gritou: "Bernard! Tem um garoto aqui, acho que é seu amigo, desce logo!".

Esperei sentado na sala e quando ele desceu as escadas e me viu, não pareceu muito contente. Perguntou o que eu fazia ali e se eu não tinha vergonha na cara de aparecer na frente dele depois de tudo o que eu fiz. Eu não entendi nada, fazia anos que eu não o via. Ele pegou no meu braço e me puxou para fora da casa, fechou a porta e com uma expressão de raiva, logo percebi que estava se segurando para não esmurrar minha cara.

"Que merda é essa? Como tu tem a cara de pau de aparecer aqui? Se a minha tia sonha que tu é o infeliz que ferrou com a gente, ela é capaz de descarregar aquela espingarda em ti, aqui mesmo, e então é mais um problema pra mim. Estou cansado de problemas!" - Disse ele.

Enquanto eu tentava entender suas palavras e indignação eu li cada pensamento que rodopiava em sua cabeça, foi como um flashback dos últimos anos, então compreendi a raiva que sentia de mim,  foi como um soco na minha consciência, um jab seguido de um nocaute da realidade. Era difícil de digerir o que eu havia feito, mal saí do lugar e já encontrei dificuldades e uma decepção. A única pessoa que poderia me ajudar nessa caminhada estava mais irritada comigo do que meus adversários de poker. Aquela amizade estava em cacos, era um fato.

Continua...






























segunda-feira, 7 de julho de 2014

Aquelas pedras

Indiferente da relevância dos casos, da importância que damos aos fatos ocorridos, os resultados são os mesmos. Precisamos entender esses resultados pois TUDO tem um propósito, devemos refletir e tentar enxergar a lição que nos é dada pela vida. Sim, devemos tirar algum proveito dessas situações, desde pequenas coisas até casos de "fundo do poço".

As pequenas pedras encontradas em nosso caminho estão lá por algum motivo, para nos ensinar a caminhar com atenção, corrigir nossa postura e não tropeçar novamente em pedras maiores.

domingo, 29 de junho de 2014

Estrada


Nessa estrada que percorro,
 busco algum sinal de sua presença. 
Desviando de maus bocados,
 ainda com a crença, 
de um dia pechar com teu sorriso, confuso e preciso,
 e novamente estacionar essa pobre mente de problemas em teu colo quente.
 Quero achar a resposta para minhas angústias em teu olhos,
 me guiando nessa estrada para encontrar o meu sossego.
 E só assim então posso,
 depois de uma longa viagem de sonhos,
 descer na primeira parada da realidade.

sábado, 28 de junho de 2014

Pequeno desabafo

Queria.
Queria ter essa leveza 
para deitar sobre minhas escolhas 
e não afundar nesse mar de responsabilidade.
Queria.
Queria tirar esse peso da consciência
esse que me prende ao medo
de sobreviver à realidade.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Para cair em teus braços

Hoje pela manhã sentado no sofá acompanhado daquela mesma sensação que me fizera compor uma canção, amando da introdução ao refrão, o seu jeito de me olhar. Rabiscar em uma folha amassada, seu sorriso, sua risada, doce e exagerada, me faz lembrar de sua presença, calma e intensa, que todo dia me pego a recordar. E na madrugada sem seu calor acordar, aquela chama que distorce a realidade com um tempero de suavidade, naquele ímpeto de liberdade, de na cama sua pele saborear. Sua falta é grande, anos de saudade desde aquela fatalidade, que me corrói a alma com a ansiedade, de te ter aqui presente, para mais um dia sorridente, cair em teus braços e no teu corpo me deitar.


domingo, 22 de junho de 2014

O leitor de mentes #2


Eu não sei como é possível nosso cérebro ser capaz de ativar uma conexão com uma outra mente próxima e conseguir baixar dados, pensamentos, através dessa conexão sem ao menos a outra parte estar ciente desse processo. Um ladrão de ideias e pensamentos, um hacker da mente. Ou projetar uma situação em que todos os nossos sentidos, fraquezas e emoções estão mais presentes do que nunca, e acreditar que isso realmente aconteceu, no caso de um amigo meu. O cérebro é um objeto estranho de estudo, com habilidades incríveis, considerado, por alguns, limitado devido a barreiras históricas impostas pela sociedade. "Isso não é e nunca será possível", dizia um velho tio meu e metade do mundo. "Se eu não consigo, você também não vai conseguir", eis o pensamento de sempre e de hoje.

Eu acreditava como todo o resto, existem coisas impossíveis, coisas que nós, humanos, somos incapazes de realizar. Até eu me dar conta que os problemas que eu tinha não eram comuns. As vozes que eu sempre escutava não eram imaginação, eu tinha um dom, a habilidade de ler mentes. Acreditei até os 14 anos que essa minha diferença era fruto de uma esquizofrenia diagnosticada, mas me dei conta, depois de ler sobre. Essas vozes não eram projetadas pela minha cabeça, mas sim, vinham de pessoas próximas. Com o tempo eu consegui controlar, apenas escutava aquelas pessoas que eu queria e não um tsunami de palavras que causavam as dores de cabeça.

Depois de conhecer a Janie, a garota por quem me apaixonei, e me explicar um pouco sobre esses dons, me dei conta de que muitas pessoas que eu convivi tinham comportamentos diferentes, como o meu. Eu sempre fui muito observador, parecia estar toda hora em outro mundo, no meu próprio mundo, mas estava toda hora tentando ler a mente de quem estava comigo. Sim, nunca consegui fazer duas coisas ao mesmo tempo, minha mãe estava certa. Logo após a Janie partir eu comecei a ler, escrever um pouco sobre o comportamento humano levando em conta minhas experiências que eram praticamente zero e decidi então mergulhar mundo a fora buscando a resposta pra essas habilidades.

O amigo que citei no início era um colega da oitava série. Ele sempre me contava das experiências que vivia, das pessoas que conhecia e dos lugares que esteve. Eu não entendia como uma criança poderia estar cada dia em um lugar diferente do mundo e mesmo assim não perder nem um dia de aula. O garoto sempre aparecia com marcas, objetos estranhos e relatos tão detalhados que as vezes acabava entrando na onda de sua conversa. Mas o mais estranho é que ele acreditava profundamente que esteve naquelas situações, não tinha maldade nenhuma e muito menos consciência de que estava mentindo. Sabia disso pois lia sua mente cada vez que me contava de suas aventuras.

Segundo a Janie, esses poderes não se limitam apenas a leitura de mentes, tanto que ela conhecera uma cara que conseguia entrar no sonhos dela. Então me lembrei desse amigo, amigo que eu não via desde o ensino fundamental, que não fazia ideia de como estaria após esses anos mas possuía um comportamento e confidências que sempre me intrigaram. Acordei decidido e com objetivos novos, tomei um gole de café acompanhado de uma torrada e então fui para minha antiga escola tentar descobrir o endereço desse garoto, buscando qualquer pista que me levasse a encontrar esse velho amigo sonhador.

Continua...

domingo, 15 de junho de 2014

O leitor de mentes

Sim, eu leio mentes, nasci com esse dom incomum. Passei minha vida tentando entender o motivo das dores de cabeça constantes e vozes que pareciam vir de lugar nenhum, até com psiquiatras me consultei. Com o tempo percebi que eu era diferente, que essas vozes sem sentido vinham das pessoas ao meu redor e eu tinha que aprender a conviver com isso, tentar tirar algum proveito dessa estranha habilidade. 

Colei muito, desde o ensino fundamental à faculdade, conseguia ler a mente de todos os meus colegas nas provas e então sempre foi fácil me sair bem e conseguir prestígio. Nas entrevistas de emprego eu sabia exatamente o que meu contratante queria e sabia muito bem como conquistá-lo. Nunca tive problema para escolher presentes, conquistando mulheres, para decidir em quem confiar meu voto nas eleições acabando sempre em branco, resolver problemas e para ganhar no bom e velho poker de domingo que por meio desse acabei arrecadando uma fortuna absurda.

Minha vida era perfeita, eu era o dono do mundo, tinha o que queria e como queria. Mas com o tempo, confesso, que minha vida começou a ficar um pouco sem graça, a emoção das apostas em geral não existiam mais, nunca existiu na verdade. O frio na barriga ao falar com uma menina ou mulher que eu tinha interesse nunca aconteceu, pois sabia exatamente o que elas queriam ouvir e quem queria ouvir. A surpresa de receber um presente incrível de aniversário ou natal nunca passou por mim, sempre soube o que iria ganhar.

Gozei desse dom até o momento em que me apaixonei. Me apaixonei justamente por uma pessoa que tinha o mesmo estranho dom que eu. Uma garota de 19 anos, baixa estatura, sardas, pele branca como a neve, cabelos pretos e um olhar verde penetrante, olhar que me causava calafrios, um frio na barriga, uma emoção sem explicação, surpresa a cada segundo pois ela sabia cada passo meu, cada pensamento, cada cartada.

Minha vida tinha tomado cor novamente, cores mais alegres. E surpreendentemente minha capacidade de ler mentes não se aplicava àquela mulher. Pelo fator experiência ela sabia de algum modo anular meus efeitos sobre ela e eu não conseguia fazer o mesmo pois passei minha vida desfrutando dessa habilidade ao invés de estudá-la. Era uma verdadeira estudante desse dom, inteligente, estrategista, esperta, fria e calculista. Ela soube facilmente me fisgar em meio desse mar de pensamentos e perceber meu dom, querendo saber mais sobre o meu "tipo" de leitura. 

Pois é, além de existir várias pessoas pelo mundo com esse dom, haviam variações dessa habilidade, pontos extras, o que explica o bloqueio da mente feito por ela. Caiu a ficha de que eu não era tão único assim, e ainda mais, era considerado a ralé desse grupo por não ter uma variação da minha habilidade, eu apenas conseguia ler mentes. 

Bom, como um tornado ela devastou meu mundo, aquele em que eu era rei, e junto trouxe novos ares, pensamentos e interesses. Eu estava decidido em estudar mais sobre essas habilidades, viajar o mundo com apenas uma mochila nas costas preenchida de curiosidade e força de vontade. Claro que, como um tornado, ela teve uma breve passagem na minha vida, algumas semanas suficiente para conquistar,  fez o que tinha que fazer por ali e então partiu para sei lá onde. Quem sabe eu encontro ela por aí, fumando um cigarro sentada em uma praça, observando e levemente rindo ao saber dos segredos sórdidos das mentes pensantes que passavam por ali.

Continua...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A dama dos vinis

O frio preenche o vazio das ruas lá fora, vagando entre entre becos e esquinas, como um velho ébrio sem casa e sem rumo. O nascer do sol, tímido, se esconde atrás de suas fiéis companheiras, constituídas de partículas de água condensada que aguardam apenas um sinal para despejar todo o seu desabafo em forma d'água sobre nós. Um dia cinzento, frio regado a uma boa caneca de café e às lembranças dos nossos momentos, nostalgia que esquenta a alma e me mantém firme cada dia que passa. Me aproximo dela, velha companheira de guerra que dividiu inúmeras ocasiões de sofrimento e alegria, e puxo um vinil do Deep Purple deitando-o em seu colo. Ela então acolhe aquele disco o reconhecendo como um velho amante de inúmeras danças e noitadas. Levemente pego o seu braço, delicado, e a conduzo em direção ao seu velho amigo para que me presenteiem com mais uma magnífica dança naquela manhã. O sol, então curioso, porém ainda um pouco tímido, pede licença para observar o que tanto acontece nessa casa. Vai aparecendo aos poucos como quem não quer nada, e então quando a agulha encosta no vinil, ele se assusta, mas aprecia. O som proporcionado pela união dos dois amantes começa a preencher a casa, rastejando pelo assoalho procurando cada cantinho para se estabelecer, subindo pelas paredes visando se apropriar por completo, e perfeitamente aceito, daquele ambiente. Sento-me no sofá com a minha caneca, ainda quente, de cafeína para amar minuciosamente cada nota presente ali. A dança dos dois fazia um belo espetáculo, acalmando as nuvens e trazendo de volta o sol, calor e beleza para aquele dia tão melancólico que se fazia presente. O único que não ia embora era o frio, esse que vagava pelas ruas cinzentas e desertas por um momento se debruçou na minha janela, deitando o queixo nos braços cruzados com uma expressão de sossego, prazer, como se tivesse encontrado um lugar para se recompor. O vinil rodava, bailando nos braços daquela donzela elegante e suave, em um só ritmo por horas e horas seguidas, instalando em toda a casa aquela calma e nostalgia de momentos únicos e restaurando toda a beleza daquele dia cinzento e amargo, triste. O Sol já estava sorridente, emanando energia ao seu redor, radiante por admirar aquele baile sem pagar por entrada. O Frio já estava dançante lá fora, exaltando energia, eufórico, com um sorriso no rosto ele vai embora, pronto para pegar qualquer donzela pelo caminho e tirar para uma dança. E eu, com minha caneca vazia de café, a coloco em cima da mesa e vou em direção à vitrola, magnífica dama dos vinis, para dar uma trégua ao casal, um descanso para aqueles dois amantes que bailaram ao som de um bom e velho rock, dando um novo ar, uma nova cara a essa atmosfera, uma nova cor a esse dia cinzento.

Tempo cinzento

Doce memória do tempo cinzento
Que invade a mente, corrói correntes
Presa, enjaulada, fera carente
Inerte no caos que é nossa mente
 Até o devido instante presente
Romper algemas de tal sentimento
 Nostalgia do doce, suave momento
Que é recordar, pensar na gente
Aquecendo a alma, velha e descrente
  Nesse úmido e frio tempo cinzento.

sábado, 10 de maio de 2014

Porto seguro.

Acendo um cigarro enquanto olho para a rua, observando da minha sacada as mentes problemáticas que transitam de um lado para outro, cada uma com suas dúvidas e desavenças com a vida. Observo próximo à esquina uma criança, aparentemente seis anos, cabelos loiros e carregando uma expressão de tristeza no rosto. Trago meu cigarro enquanto tento imaginar o que se passa com aquele pequeno ser que ainda deveria ser imune a todas essas preocupações e responsabilidades que nos cercam. Reparo que ele segue com o olhar cada pessoa que cruza por ali, como se estivesse buscando a resposta que tanto procura, mas cada indivíduo está ocupado demais sobrevivendo dentro da sua bolha, do seu mundo, que nem reparam naquela criança. Bato as cinzas, ainda pensativo, em um cinzeiro próximo e me retiro por um instante para pegar um café na cozinha. Ao retornar busco a figura da criança e facilmente a encontro sentada em um banco da praça, descansando seu queixo escorado sob suas mãos e com olhar, ainda pesaroso, fixo para algo que não consegui enxergar de onde eu estava. Me inclino quase derrubando a caneca de café que deixara na borda da sacada, investigando o que tanto aquela criança visava, mas fracasso. O que deixara aquele pequeno ser tão melancólico? Já eram quase seis e o sol começava a se esconder no oeste, me presenteando com uma visão sem igual, e o jovenzinho parecia estar quase desistindo até que uma mulher, com um ar de desespero, corre em sua direção o fazendo levantar o olhar para observar quem era. Então o garoto deixa escapar um leve sorriso, limpando os olhos, mandando aquela tristeza embora, como se conhecesse aquela mulher e ela fosse a resposta para suas perguntas. Ela corre em sua direção, afastando tudo de ruim que estivesse rondando aquele lugar e, ao se aproximar, feito uma brisa no verão, abraça aquela criança acabando com toda a melancolia e sofrimento daquele menino. Ele deita a cabeça em seu obro e agarra forte seu pescoço, sorrindo, como se estivesse em seu castelinho, sua barraquinha que fizera na sala de estar com almofadas e cobertores, em seu porto seguro.


Ah, Mães...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Escravo do seu destino.

Vagando entre o verde, desviando com as mãos cansadas os galhos que obstruíam seu caminho, e sentindo a umidade das folhas entre seus dedos, o sujeito buscava uma direção para qual fugir do seus demônios, da escravidão em que vivia. Seus pés, já sem as botas de couro que pegara de um de seus companheiros mortos, formigavam apesar do contato ser leve com o solo macio. Ele tinha um objetivo, sim, sair vivo das entranhas da selva que o cercava e engolia aos poucos, mas ele andava em círculos, não tinha conhecimento algum daquela região, era um completo estranho naquele território hostil, como uma criança inocente perambulando no escuro à procura da segurança do colo de seus pais.
 

As horas passavam e a sensação de estar sendo observado aumentava, deixando-o cada vez mais aflito e nervoso. O medo, inerente à sua alma ao nascer em meio a guerras, era um sentimento mais do que familiar para aquele pobre homem que, presenciou lentamente, a morte de sua família e a escravidão. A magnífica lua cheia já dava as caras, dando um ar ainda mais sombrio e melancólico àquela região. As vozes, ruídos que surgiam entre os galhos e folhagens acompanhadas de silhuetas proporcionadas pela lua cheia, deixavam aquele homem em prantos. O homem aquele que não tinha um deus, agora rezava, implorava, recorria a qualquer coisa ou entidade para ainda ter consigo o pouco que lhe restava, o direito a vida.

Direito a vida, direito que não era mais seu. Aos poucos a vida que o destino o proporcionou tomou a sua personalidade, sua privacidade, sua intimidade, liberdade e o que ser a vida senão o conjunto desses direitos? Ele já estava morto mas não sabia. Um pobre escravo fugitivo que vagava pela área mais faminta da região, faminta de alma, de sonhos, de esperanças. A fome o tomava, dor e cansaço já se instalavam pelo seu corpo, e o medo, desespero, destruíra sua mente. Então sem mais esperanças e sonhos, o homem se ajoelha, sangrando, suando, e consegue observar as criaturas que habitam aquele local se aproximarem para se alimentar da última coisa que lhe restava, a alma, essa mesma que deslizou pelo seu corpo, aos poucos, juntando-se às outras almas que viviam por ali.

sábado, 3 de maio de 2014

Chuva da Madrugada.

Ouço ela lá fora batendo na janela querendo entrar, dançando pelo vidro, fazendo seu próprio caminho, desviando de obstáculos recônditos para quem não compartilha de seu ponto de vista. Ela que te consola, te abraça, te conforta em seu peito, mãe confidente de lamúrias e injúrias que, acompanhada à chama da lareira, brasa em cólera, te convida para saborear, lisonjear, o doce da madrugada. Ela, que não é ciumenta, chuva que acolhe e acalenta até mesmo quantas almas, inquietas e sedentas, queiram dessa orgia desfrutar. Não cobra, não te acorda, apenas junta suas coisas e vai embora, deixando para trás as lembranças de uma noite incrível, inesquecível, para outro dia retornar.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Caminhada.


Um caminhar longo que não leva a nada, uma chuva fria que não molha, que não acaba. 
Um objetivo sem determinação, um amor sem paixão.
Quero chegar, em um lugar, mas tropeço em pedras por aí. 
Creio que esse seja o caminho certo mas não persisto, desisto, talvez essa não seja a solução.
Agora percebo.
E o sentido da caminhada? Da sua caminhada.
Sobreviva, insista, teime.
caminhe.

Taverna.


Então já sentado em uma cadeira confortável, tua mão desliza pelo bolso à procura da chave que abre a porta das tuas emoções e imaginação. Uma chave que é formada por pequenos auto falantes, auriculares que, ao som de uma música mediévica te leva a tempos antigos...


Lembrar do doce hidromel escorrendo pela garganta e do cheiro de sangue instalado naquele ambiente sórdido, um tanto mórbido, no qual já estive inúmeras vezes presente me deixa eufórico, afinal, se passaram dois anos desde a última vez que compareci naquele recinto. Lembrar daquela melodia suave cantada por lábios carmesim de uma linda mulher acompanhada do leve som de uma lira me deixa louco. Sinto falta de entrar naquele âmbito fétido de álcool, puxar uma cadeira e sentar na mesa do canto esquerdo onde meus companheiros sempre se instalavam. Sinto falta do hidromel, do cheiro de sangue daquele lugar, das brigas que ocorriam por motivos toscos, dos meus companheiros, da voz e da boca daquela mulher que estimulavam meus instintos primitivos como ninguém. Mas estou aqui, deitado, jogado, com essas flechas no meu peito sentindo cada pingo dessa chuva fria como se fossem marteladas na minha cabeça.

Epiderme.

Sentado, largado, suando e pensando. 

Pensamentos vagos mas lembranças precisas.
Lembranças de como era o nosso circo, momentos, de um olhar a uma risada.
De um toque a uma lambada. 
Suor de quando tocava sua mão fria, macia, uma leve lembrança do nervosismo que corria, em minha pele ao sentir sua presença em minha epiderme.