segunda-feira, 19 de maio de 2014

A dama dos vinis

O frio preenche o vazio das ruas lá fora, vagando entre entre becos e esquinas, como um velho ébrio sem casa e sem rumo. O nascer do sol, tímido, se esconde atrás de suas fiéis companheiras, constituídas de partículas de água condensada que aguardam apenas um sinal para despejar todo o seu desabafo em forma d'água sobre nós. Um dia cinzento, frio regado a uma boa caneca de café e às lembranças dos nossos momentos, nostalgia que esquenta a alma e me mantém firme cada dia que passa. Me aproximo dela, velha companheira de guerra que dividiu inúmeras ocasiões de sofrimento e alegria, e puxo um vinil do Deep Purple deitando-o em seu colo. Ela então acolhe aquele disco o reconhecendo como um velho amante de inúmeras danças e noitadas. Levemente pego o seu braço, delicado, e a conduzo em direção ao seu velho amigo para que me presenteiem com mais uma magnífica dança naquela manhã. O sol, então curioso, porém ainda um pouco tímido, pede licença para observar o que tanto acontece nessa casa. Vai aparecendo aos poucos como quem não quer nada, e então quando a agulha encosta no vinil, ele se assusta, mas aprecia. O som proporcionado pela união dos dois amantes começa a preencher a casa, rastejando pelo assoalho procurando cada cantinho para se estabelecer, subindo pelas paredes visando se apropriar por completo, e perfeitamente aceito, daquele ambiente. Sento-me no sofá com a minha caneca, ainda quente, de cafeína para amar minuciosamente cada nota presente ali. A dança dos dois fazia um belo espetáculo, acalmando as nuvens e trazendo de volta o sol, calor e beleza para aquele dia tão melancólico que se fazia presente. O único que não ia embora era o frio, esse que vagava pelas ruas cinzentas e desertas por um momento se debruçou na minha janela, deitando o queixo nos braços cruzados com uma expressão de sossego, prazer, como se tivesse encontrado um lugar para se recompor. O vinil rodava, bailando nos braços daquela donzela elegante e suave, em um só ritmo por horas e horas seguidas, instalando em toda a casa aquela calma e nostalgia de momentos únicos e restaurando toda a beleza daquele dia cinzento e amargo, triste. O Sol já estava sorridente, emanando energia ao seu redor, radiante por admirar aquele baile sem pagar por entrada. O Frio já estava dançante lá fora, exaltando energia, eufórico, com um sorriso no rosto ele vai embora, pronto para pegar qualquer donzela pelo caminho e tirar para uma dança. E eu, com minha caneca vazia de café, a coloco em cima da mesa e vou em direção à vitrola, magnífica dama dos vinis, para dar uma trégua ao casal, um descanso para aqueles dois amantes que bailaram ao som de um bom e velho rock, dando um novo ar, uma nova cara a essa atmosfera, uma nova cor a esse dia cinzento.

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