domingo, 15 de junho de 2014

O leitor de mentes

Sim, eu leio mentes, nasci com esse dom incomum. Passei minha vida tentando entender o motivo das dores de cabeça constantes e vozes que pareciam vir de lugar nenhum, até com psiquiatras me consultei. Com o tempo percebi que eu era diferente, que essas vozes sem sentido vinham das pessoas ao meu redor e eu tinha que aprender a conviver com isso, tentar tirar algum proveito dessa estranha habilidade. 

Colei muito, desde o ensino fundamental à faculdade, conseguia ler a mente de todos os meus colegas nas provas e então sempre foi fácil me sair bem e conseguir prestígio. Nas entrevistas de emprego eu sabia exatamente o que meu contratante queria e sabia muito bem como conquistá-lo. Nunca tive problema para escolher presentes, conquistando mulheres, para decidir em quem confiar meu voto nas eleições acabando sempre em branco, resolver problemas e para ganhar no bom e velho poker de domingo que por meio desse acabei arrecadando uma fortuna absurda.

Minha vida era perfeita, eu era o dono do mundo, tinha o que queria e como queria. Mas com o tempo, confesso, que minha vida começou a ficar um pouco sem graça, a emoção das apostas em geral não existiam mais, nunca existiu na verdade. O frio na barriga ao falar com uma menina ou mulher que eu tinha interesse nunca aconteceu, pois sabia exatamente o que elas queriam ouvir e quem queria ouvir. A surpresa de receber um presente incrível de aniversário ou natal nunca passou por mim, sempre soube o que iria ganhar.

Gozei desse dom até o momento em que me apaixonei. Me apaixonei justamente por uma pessoa que tinha o mesmo estranho dom que eu. Uma garota de 19 anos, baixa estatura, sardas, pele branca como a neve, cabelos pretos e um olhar verde penetrante, olhar que me causava calafrios, um frio na barriga, uma emoção sem explicação, surpresa a cada segundo pois ela sabia cada passo meu, cada pensamento, cada cartada.

Minha vida tinha tomado cor novamente, cores mais alegres. E surpreendentemente minha capacidade de ler mentes não se aplicava àquela mulher. Pelo fator experiência ela sabia de algum modo anular meus efeitos sobre ela e eu não conseguia fazer o mesmo pois passei minha vida desfrutando dessa habilidade ao invés de estudá-la. Era uma verdadeira estudante desse dom, inteligente, estrategista, esperta, fria e calculista. Ela soube facilmente me fisgar em meio desse mar de pensamentos e perceber meu dom, querendo saber mais sobre o meu "tipo" de leitura. 

Pois é, além de existir várias pessoas pelo mundo com esse dom, haviam variações dessa habilidade, pontos extras, o que explica o bloqueio da mente feito por ela. Caiu a ficha de que eu não era tão único assim, e ainda mais, era considerado a ralé desse grupo por não ter uma variação da minha habilidade, eu apenas conseguia ler mentes. 

Bom, como um tornado ela devastou meu mundo, aquele em que eu era rei, e junto trouxe novos ares, pensamentos e interesses. Eu estava decidido em estudar mais sobre essas habilidades, viajar o mundo com apenas uma mochila nas costas preenchida de curiosidade e força de vontade. Claro que, como um tornado, ela teve uma breve passagem na minha vida, algumas semanas suficiente para conquistar,  fez o que tinha que fazer por ali e então partiu para sei lá onde. Quem sabe eu encontro ela por aí, fumando um cigarro sentada em uma praça, observando e levemente rindo ao saber dos segredos sórdidos das mentes pensantes que passavam por ali.

Continua...

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