Eu não sei como é possível nosso cérebro ser capaz de ativar uma conexão com uma outra mente próxima e conseguir baixar dados, pensamentos, através dessa conexão sem ao menos a outra parte estar ciente desse processo. Um ladrão de ideias e pensamentos, um hacker da mente. Ou projetar uma situação em que todos os nossos sentidos, fraquezas e emoções estão mais presentes do que nunca, e acreditar que isso realmente aconteceu, no caso de um amigo meu. O cérebro é um objeto estranho de estudo, com habilidades incríveis, considerado, por alguns, limitado devido a barreiras históricas impostas pela sociedade. "Isso não é e nunca será possível", dizia um velho tio meu e metade do mundo. "Se eu não consigo, você também não vai conseguir", eis o pensamento de sempre e de hoje.
Eu acreditava como todo o resto, existem coisas impossíveis, coisas que nós, humanos, somos incapazes de realizar. Até eu me dar conta que os problemas que eu tinha não eram comuns. As vozes que eu sempre escutava não eram imaginação, eu tinha um dom, a habilidade de ler mentes. Acreditei até os 14 anos que essa minha diferença era fruto de uma esquizofrenia diagnosticada, mas me dei conta, depois de ler sobre. Essas vozes não eram projetadas pela minha cabeça, mas sim, vinham de pessoas próximas. Com o tempo eu consegui controlar, apenas escutava aquelas pessoas que eu queria e não um tsunami de palavras que causavam as dores de cabeça.
Depois de conhecer a Janie, a garota por quem me apaixonei, e me explicar um pouco sobre esses dons, me dei conta de que muitas pessoas que eu convivi tinham comportamentos diferentes, como o meu. Eu sempre fui muito observador, parecia estar toda hora em outro mundo, no meu próprio mundo, mas estava toda hora tentando ler a mente de quem estava comigo. Sim, nunca consegui fazer duas coisas ao mesmo tempo, minha mãe estava certa. Logo após a Janie partir eu comecei a ler, escrever um pouco sobre o comportamento humano levando em conta minhas experiências que eram praticamente zero e decidi então mergulhar mundo a fora buscando a resposta pra essas habilidades.
O amigo que citei no início era um colega da oitava série. Ele sempre me contava das experiências que vivia, das pessoas que conhecia e dos lugares que esteve. Eu não entendia como uma criança poderia estar cada dia em um lugar diferente do mundo e mesmo assim não perder nem um dia de aula. O garoto sempre aparecia com marcas, objetos estranhos e relatos tão detalhados que as vezes acabava entrando na onda de sua conversa. Mas o mais estranho é que ele acreditava profundamente que esteve naquelas situações, não tinha maldade nenhuma e muito menos consciência de que estava mentindo. Sabia disso pois lia sua mente cada vez que me contava de suas aventuras.
Segundo a Janie, esses poderes não se limitam apenas a leitura de mentes, tanto que ela conhecera uma cara que conseguia entrar no sonhos dela. Então me lembrei desse amigo, amigo que eu não via desde o ensino fundamental, que não fazia ideia de como estaria após esses anos mas possuía um comportamento e confidências que sempre me intrigaram. Acordei decidido e com objetivos novos, tomei um gole de café acompanhado de uma torrada e então fui para minha antiga escola tentar descobrir o endereço desse garoto, buscando qualquer pista que me levasse a encontrar esse velho amigo sonhador.
Continua...

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