O frio preenche o vazio
das ruas lá fora, vagando entre entre becos e esquinas, como um
velho ébrio sem casa e sem rumo. O nascer do sol, tímido, se
esconde atrás de suas fiéis companheiras, constituídas de
partículas de água condensada que aguardam apenas um sinal para
despejar todo o seu desabafo em forma d'água sobre nós. Um dia
cinzento, frio regado a uma boa caneca de café e às lembranças
dos nossos momentos, nostalgia que esquenta a alma e me mantém firme
cada dia que passa. Me aproximo dela, velha companheira de guerra que
dividiu inúmeras ocasiões de sofrimento e alegria, e puxo um vinil
do Deep Purple deitando-o em seu colo. Ela então acolhe aquele disco
o reconhecendo como um velho amante de inúmeras danças e noitadas.
Levemente pego o seu braço, delicado, e a conduzo em direção ao
seu velho amigo para que me presenteiem com mais uma magnífica dança
naquela manhã. O sol, então curioso, porém ainda um pouco tímido,
pede licença para observar o que tanto acontece nessa casa. Vai
aparecendo aos poucos como quem não quer nada, e então quando a
agulha encosta no vinil, ele se assusta, mas aprecia. O som
proporcionado pela união dos dois amantes começa a preencher a
casa, rastejando pelo assoalho procurando cada cantinho para se
estabelecer, subindo pelas paredes visando se apropriar por completo,
e perfeitamente aceito, daquele ambiente. Sento-me no sofá com a
minha caneca, ainda quente, de cafeína para amar minuciosamente cada
nota presente ali. A dança dos dois fazia um belo espetáculo,
acalmando as nuvens e trazendo de volta o sol, calor e beleza para
aquele dia tão melancólico que se fazia presente. O único que não
ia embora era o frio, esse que vagava pelas ruas cinzentas e desertas
por um momento se debruçou na minha janela, deitando o queixo nos
braços cruzados com uma expressão de sossego, prazer, como se
tivesse encontrado um lugar para se recompor. O vinil rodava,
bailando nos braços daquela donzela elegante e suave, em um só
ritmo por horas e horas seguidas, instalando em toda a casa aquela
calma e nostalgia de momentos únicos e restaurando toda a beleza
daquele dia cinzento e amargo, triste. O Sol já estava sorridente,
emanando energia ao seu redor, radiante por admirar aquele baile sem
pagar por entrada. O Frio já estava dançante lá fora, exaltando
energia, eufórico, com um sorriso no rosto ele vai embora, pronto
para pegar qualquer donzela pelo caminho e tirar para uma dança. E
eu, com minha caneca vazia de café, a coloco em cima da mesa e vou
em direção à vitrola, magnífica dama dos vinis, para dar uma
trégua ao casal, um descanso para aqueles dois amantes que bailaram
ao som de um bom e velho rock, dando um novo ar, uma nova cara a essa
atmosfera, uma nova cor a esse dia cinzento.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Tempo cinzento
Doce memória do tempo cinzento
Que invade a mente, corrói correntes
Presa, enjaulada, fera carente
Inerte no caos que é nossa mente
Até o devido instante presente
Romper algemas de tal sentimento
Nostalgia do doce, suave momento
Que é recordar, pensar na gente
Aquecendo a alma, velha e descrente
Nesse úmido e frio tempo cinzento.
Que invade a mente, corrói correntes
Presa, enjaulada, fera carente
Inerte no caos que é nossa mente
Até o devido instante presente
Romper algemas de tal sentimento
Nostalgia do doce, suave momento
Que é recordar, pensar na gente
Aquecendo a alma, velha e descrente
Nesse úmido e frio tempo cinzento.
sábado, 10 de maio de 2014
Porto seguro.
Acendo um cigarro
enquanto olho para a rua, observando da minha sacada as mentes
problemáticas que transitam de um lado para outro, cada uma com suas
dúvidas e desavenças com a vida. Observo próximo à esquina uma
criança, aparentemente seis anos, cabelos loiros e carregando uma
expressão de tristeza no rosto. Trago meu cigarro enquanto tento
imaginar o que se passa com aquele pequeno ser que ainda deveria ser
imune a todas essas preocupações e responsabilidades que nos
cercam. Reparo que ele segue com o olhar cada pessoa que cruza por
ali, como se estivesse buscando a resposta que tanto procura, mas
cada indivíduo está ocupado demais sobrevivendo dentro da sua
bolha, do seu mundo, que nem reparam naquela criança. Bato as
cinzas, ainda pensativo, em um cinzeiro próximo e me retiro por um
instante para pegar um café na cozinha. Ao retornar busco a figura
da criança e facilmente a encontro sentada em um banco da praça,
descansando seu queixo escorado sob suas mãos e com olhar, ainda
pesaroso, fixo para algo que não consegui enxergar de onde eu
estava. Me inclino quase derrubando a caneca de café que deixara na
borda da sacada, investigando o que tanto aquela criança visava, mas
fracasso. O que deixara aquele pequeno ser tão melancólico? Já
eram quase seis e o sol começava a se esconder no oeste, me
presenteando com uma visão sem igual, e o jovenzinho parecia estar
quase desistindo até que uma mulher, com um ar de desespero, corre
em sua direção o fazendo levantar o olhar para observar quem era.
Então o garoto deixa escapar um leve sorriso, limpando os olhos,
mandando aquela tristeza embora, como se conhecesse aquela mulher e
ela fosse a resposta para suas perguntas. Ela corre em sua direção,
afastando tudo de ruim que estivesse rondando aquele lugar e, ao se
aproximar, feito uma brisa no verão, abraça aquela criança acabando com toda a melancolia e sofrimento daquele menino. Ele
deita a cabeça em seu obro e agarra forte seu pescoço, sorrindo,
como se estivesse em seu castelinho, sua barraquinha que fizera na
sala de estar com almofadas e cobertores, em seu porto seguro.
Ah, Mães...
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Escravo do seu destino.
Vagando entre o verde, desviando com as mãos cansadas os galhos que obstruíam seu caminho, e sentindo a umidade das folhas entre seus dedos, o sujeito buscava uma direção para qual fugir do seus demônios, da escravidão em que vivia. Seus pés, já sem as botas de couro que pegara de um de seus companheiros mortos, formigavam apesar do contato ser leve com o solo macio. Ele tinha um objetivo, sim, sair vivo das entranhas da selva que o cercava e engolia aos poucos, mas ele andava em círculos, não tinha conhecimento algum daquela região, era um completo estranho naquele território hostil, como uma criança inocente perambulando no escuro à procura da segurança do colo de seus pais.
As horas passavam e a sensação de estar sendo observado aumentava, deixando-o cada vez mais aflito e nervoso. O medo, inerente à sua alma ao nascer em meio a guerras, era um sentimento mais do que familiar para aquele pobre homem que, presenciou lentamente, a morte de sua família e a escravidão. A magnífica lua cheia já dava as caras, dando um ar ainda mais sombrio e melancólico àquela região. As vozes, ruídos que surgiam entre os galhos e folhagens acompanhadas de silhuetas proporcionadas pela lua cheia, deixavam aquele homem em prantos. O homem aquele que não tinha um deus, agora rezava, implorava, recorria a qualquer coisa ou entidade para ainda ter consigo o pouco que lhe restava, o direito a vida.
Direito a vida, direito que não era mais seu. Aos poucos a vida que o destino o proporcionou tomou a sua personalidade, sua privacidade, sua intimidade, liberdade e o que ser a vida senão o conjunto desses direitos? Ele já estava morto mas não sabia. Um pobre escravo fugitivo que vagava pela área mais faminta da região, faminta de alma, de sonhos, de esperanças. A fome o tomava, dor e cansaço já se instalavam pelo seu corpo, e o medo, desespero, destruíra sua mente. Então sem mais esperanças e sonhos, o homem se ajoelha, sangrando, suando, e consegue observar as criaturas que habitam aquele local se aproximarem para se alimentar da última coisa que lhe restava, a alma, essa mesma que deslizou pelo seu corpo, aos poucos, juntando-se às outras almas que viviam por ali.
As horas passavam e a sensação de estar sendo observado aumentava, deixando-o cada vez mais aflito e nervoso. O medo, inerente à sua alma ao nascer em meio a guerras, era um sentimento mais do que familiar para aquele pobre homem que, presenciou lentamente, a morte de sua família e a escravidão. A magnífica lua cheia já dava as caras, dando um ar ainda mais sombrio e melancólico àquela região. As vozes, ruídos que surgiam entre os galhos e folhagens acompanhadas de silhuetas proporcionadas pela lua cheia, deixavam aquele homem em prantos. O homem aquele que não tinha um deus, agora rezava, implorava, recorria a qualquer coisa ou entidade para ainda ter consigo o pouco que lhe restava, o direito a vida.
Direito a vida, direito que não era mais seu. Aos poucos a vida que o destino o proporcionou tomou a sua personalidade, sua privacidade, sua intimidade, liberdade e o que ser a vida senão o conjunto desses direitos? Ele já estava morto mas não sabia. Um pobre escravo fugitivo que vagava pela área mais faminta da região, faminta de alma, de sonhos, de esperanças. A fome o tomava, dor e cansaço já se instalavam pelo seu corpo, e o medo, desespero, destruíra sua mente. Então sem mais esperanças e sonhos, o homem se ajoelha, sangrando, suando, e consegue observar as criaturas que habitam aquele local se aproximarem para se alimentar da última coisa que lhe restava, a alma, essa mesma que deslizou pelo seu corpo, aos poucos, juntando-se às outras almas que viviam por ali.
sábado, 3 de maio de 2014
Chuva da Madrugada.
Ouço ela lá fora batendo na janela
querendo entrar, dançando pelo vidro, fazendo seu próprio caminho,
desviando de obstáculos recônditos para quem não compartilha de
seu ponto de vista. Ela que te consola, te abraça, te conforta em
seu peito, mãe confidente de lamúrias e injúrias que, acompanhada
à chama da lareira, brasa em cólera, te convida para saborear,
lisonjear, o doce da madrugada. Ela, que não é ciumenta, chuva que
acolhe e acalenta até mesmo quantas almas, inquietas e sedentas,
queiram dessa orgia desfrutar. Não cobra, não te acorda, apenas
junta suas coisas e vai embora, deixando para trás as lembranças
de uma noite incrível, inesquecível, para outro dia retornar.
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