sábado, 10 de maio de 2014

Porto seguro.

Acendo um cigarro enquanto olho para a rua, observando da minha sacada as mentes problemáticas que transitam de um lado para outro, cada uma com suas dúvidas e desavenças com a vida. Observo próximo à esquina uma criança, aparentemente seis anos, cabelos loiros e carregando uma expressão de tristeza no rosto. Trago meu cigarro enquanto tento imaginar o que se passa com aquele pequeno ser que ainda deveria ser imune a todas essas preocupações e responsabilidades que nos cercam. Reparo que ele segue com o olhar cada pessoa que cruza por ali, como se estivesse buscando a resposta que tanto procura, mas cada indivíduo está ocupado demais sobrevivendo dentro da sua bolha, do seu mundo, que nem reparam naquela criança. Bato as cinzas, ainda pensativo, em um cinzeiro próximo e me retiro por um instante para pegar um café na cozinha. Ao retornar busco a figura da criança e facilmente a encontro sentada em um banco da praça, descansando seu queixo escorado sob suas mãos e com olhar, ainda pesaroso, fixo para algo que não consegui enxergar de onde eu estava. Me inclino quase derrubando a caneca de café que deixara na borda da sacada, investigando o que tanto aquela criança visava, mas fracasso. O que deixara aquele pequeno ser tão melancólico? Já eram quase seis e o sol começava a se esconder no oeste, me presenteando com uma visão sem igual, e o jovenzinho parecia estar quase desistindo até que uma mulher, com um ar de desespero, corre em sua direção o fazendo levantar o olhar para observar quem era. Então o garoto deixa escapar um leve sorriso, limpando os olhos, mandando aquela tristeza embora, como se conhecesse aquela mulher e ela fosse a resposta para suas perguntas. Ela corre em sua direção, afastando tudo de ruim que estivesse rondando aquele lugar e, ao se aproximar, feito uma brisa no verão, abraça aquela criança acabando com toda a melancolia e sofrimento daquele menino. Ele deita a cabeça em seu obro e agarra forte seu pescoço, sorrindo, como se estivesse em seu castelinho, sua barraquinha que fizera na sala de estar com almofadas e cobertores, em seu porto seguro.


Ah, Mães...

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