domingo, 29 de junho de 2014

Estrada


Nessa estrada que percorro,
 busco algum sinal de sua presença. 
Desviando de maus bocados,
 ainda com a crença, 
de um dia pechar com teu sorriso, confuso e preciso,
 e novamente estacionar essa pobre mente de problemas em teu colo quente.
 Quero achar a resposta para minhas angústias em teu olhos,
 me guiando nessa estrada para encontrar o meu sossego.
 E só assim então posso,
 depois de uma longa viagem de sonhos,
 descer na primeira parada da realidade.

sábado, 28 de junho de 2014

Pequeno desabafo

Queria.
Queria ter essa leveza 
para deitar sobre minhas escolhas 
e não afundar nesse mar de responsabilidade.
Queria.
Queria tirar esse peso da consciência
esse que me prende ao medo
de sobreviver à realidade.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Para cair em teus braços

Hoje pela manhã sentado no sofá acompanhado daquela mesma sensação que me fizera compor uma canção, amando da introdução ao refrão, o seu jeito de me olhar. Rabiscar em uma folha amassada, seu sorriso, sua risada, doce e exagerada, me faz lembrar de sua presença, calma e intensa, que todo dia me pego a recordar. E na madrugada sem seu calor acordar, aquela chama que distorce a realidade com um tempero de suavidade, naquele ímpeto de liberdade, de na cama sua pele saborear. Sua falta é grande, anos de saudade desde aquela fatalidade, que me corrói a alma com a ansiedade, de te ter aqui presente, para mais um dia sorridente, cair em teus braços e no teu corpo me deitar.


domingo, 22 de junho de 2014

O leitor de mentes #2


Eu não sei como é possível nosso cérebro ser capaz de ativar uma conexão com uma outra mente próxima e conseguir baixar dados, pensamentos, através dessa conexão sem ao menos a outra parte estar ciente desse processo. Um ladrão de ideias e pensamentos, um hacker da mente. Ou projetar uma situação em que todos os nossos sentidos, fraquezas e emoções estão mais presentes do que nunca, e acreditar que isso realmente aconteceu, no caso de um amigo meu. O cérebro é um objeto estranho de estudo, com habilidades incríveis, considerado, por alguns, limitado devido a barreiras históricas impostas pela sociedade. "Isso não é e nunca será possível", dizia um velho tio meu e metade do mundo. "Se eu não consigo, você também não vai conseguir", eis o pensamento de sempre e de hoje.

Eu acreditava como todo o resto, existem coisas impossíveis, coisas que nós, humanos, somos incapazes de realizar. Até eu me dar conta que os problemas que eu tinha não eram comuns. As vozes que eu sempre escutava não eram imaginação, eu tinha um dom, a habilidade de ler mentes. Acreditei até os 14 anos que essa minha diferença era fruto de uma esquizofrenia diagnosticada, mas me dei conta, depois de ler sobre. Essas vozes não eram projetadas pela minha cabeça, mas sim, vinham de pessoas próximas. Com o tempo eu consegui controlar, apenas escutava aquelas pessoas que eu queria e não um tsunami de palavras que causavam as dores de cabeça.

Depois de conhecer a Janie, a garota por quem me apaixonei, e me explicar um pouco sobre esses dons, me dei conta de que muitas pessoas que eu convivi tinham comportamentos diferentes, como o meu. Eu sempre fui muito observador, parecia estar toda hora em outro mundo, no meu próprio mundo, mas estava toda hora tentando ler a mente de quem estava comigo. Sim, nunca consegui fazer duas coisas ao mesmo tempo, minha mãe estava certa. Logo após a Janie partir eu comecei a ler, escrever um pouco sobre o comportamento humano levando em conta minhas experiências que eram praticamente zero e decidi então mergulhar mundo a fora buscando a resposta pra essas habilidades.

O amigo que citei no início era um colega da oitava série. Ele sempre me contava das experiências que vivia, das pessoas que conhecia e dos lugares que esteve. Eu não entendia como uma criança poderia estar cada dia em um lugar diferente do mundo e mesmo assim não perder nem um dia de aula. O garoto sempre aparecia com marcas, objetos estranhos e relatos tão detalhados que as vezes acabava entrando na onda de sua conversa. Mas o mais estranho é que ele acreditava profundamente que esteve naquelas situações, não tinha maldade nenhuma e muito menos consciência de que estava mentindo. Sabia disso pois lia sua mente cada vez que me contava de suas aventuras.

Segundo a Janie, esses poderes não se limitam apenas a leitura de mentes, tanto que ela conhecera uma cara que conseguia entrar no sonhos dela. Então me lembrei desse amigo, amigo que eu não via desde o ensino fundamental, que não fazia ideia de como estaria após esses anos mas possuía um comportamento e confidências que sempre me intrigaram. Acordei decidido e com objetivos novos, tomei um gole de café acompanhado de uma torrada e então fui para minha antiga escola tentar descobrir o endereço desse garoto, buscando qualquer pista que me levasse a encontrar esse velho amigo sonhador.

Continua...

domingo, 15 de junho de 2014

O leitor de mentes

Sim, eu leio mentes, nasci com esse dom incomum. Passei minha vida tentando entender o motivo das dores de cabeça constantes e vozes que pareciam vir de lugar nenhum, até com psiquiatras me consultei. Com o tempo percebi que eu era diferente, que essas vozes sem sentido vinham das pessoas ao meu redor e eu tinha que aprender a conviver com isso, tentar tirar algum proveito dessa estranha habilidade. 

Colei muito, desde o ensino fundamental à faculdade, conseguia ler a mente de todos os meus colegas nas provas e então sempre foi fácil me sair bem e conseguir prestígio. Nas entrevistas de emprego eu sabia exatamente o que meu contratante queria e sabia muito bem como conquistá-lo. Nunca tive problema para escolher presentes, conquistando mulheres, para decidir em quem confiar meu voto nas eleições acabando sempre em branco, resolver problemas e para ganhar no bom e velho poker de domingo que por meio desse acabei arrecadando uma fortuna absurda.

Minha vida era perfeita, eu era o dono do mundo, tinha o que queria e como queria. Mas com o tempo, confesso, que minha vida começou a ficar um pouco sem graça, a emoção das apostas em geral não existiam mais, nunca existiu na verdade. O frio na barriga ao falar com uma menina ou mulher que eu tinha interesse nunca aconteceu, pois sabia exatamente o que elas queriam ouvir e quem queria ouvir. A surpresa de receber um presente incrível de aniversário ou natal nunca passou por mim, sempre soube o que iria ganhar.

Gozei desse dom até o momento em que me apaixonei. Me apaixonei justamente por uma pessoa que tinha o mesmo estranho dom que eu. Uma garota de 19 anos, baixa estatura, sardas, pele branca como a neve, cabelos pretos e um olhar verde penetrante, olhar que me causava calafrios, um frio na barriga, uma emoção sem explicação, surpresa a cada segundo pois ela sabia cada passo meu, cada pensamento, cada cartada.

Minha vida tinha tomado cor novamente, cores mais alegres. E surpreendentemente minha capacidade de ler mentes não se aplicava àquela mulher. Pelo fator experiência ela sabia de algum modo anular meus efeitos sobre ela e eu não conseguia fazer o mesmo pois passei minha vida desfrutando dessa habilidade ao invés de estudá-la. Era uma verdadeira estudante desse dom, inteligente, estrategista, esperta, fria e calculista. Ela soube facilmente me fisgar em meio desse mar de pensamentos e perceber meu dom, querendo saber mais sobre o meu "tipo" de leitura. 

Pois é, além de existir várias pessoas pelo mundo com esse dom, haviam variações dessa habilidade, pontos extras, o que explica o bloqueio da mente feito por ela. Caiu a ficha de que eu não era tão único assim, e ainda mais, era considerado a ralé desse grupo por não ter uma variação da minha habilidade, eu apenas conseguia ler mentes. 

Bom, como um tornado ela devastou meu mundo, aquele em que eu era rei, e junto trouxe novos ares, pensamentos e interesses. Eu estava decidido em estudar mais sobre essas habilidades, viajar o mundo com apenas uma mochila nas costas preenchida de curiosidade e força de vontade. Claro que, como um tornado, ela teve uma breve passagem na minha vida, algumas semanas suficiente para conquistar,  fez o que tinha que fazer por ali e então partiu para sei lá onde. Quem sabe eu encontro ela por aí, fumando um cigarro sentada em uma praça, observando e levemente rindo ao saber dos segredos sórdidos das mentes pensantes que passavam por ali.

Continua...