quarta-feira, 7 de maio de 2014

Escravo do seu destino.

Vagando entre o verde, desviando com as mãos cansadas os galhos que obstruíam seu caminho, e sentindo a umidade das folhas entre seus dedos, o sujeito buscava uma direção para qual fugir do seus demônios, da escravidão em que vivia. Seus pés, já sem as botas de couro que pegara de um de seus companheiros mortos, formigavam apesar do contato ser leve com o solo macio. Ele tinha um objetivo, sim, sair vivo das entranhas da selva que o cercava e engolia aos poucos, mas ele andava em círculos, não tinha conhecimento algum daquela região, era um completo estranho naquele território hostil, como uma criança inocente perambulando no escuro à procura da segurança do colo de seus pais.
 

As horas passavam e a sensação de estar sendo observado aumentava, deixando-o cada vez mais aflito e nervoso. O medo, inerente à sua alma ao nascer em meio a guerras, era um sentimento mais do que familiar para aquele pobre homem que, presenciou lentamente, a morte de sua família e a escravidão. A magnífica lua cheia já dava as caras, dando um ar ainda mais sombrio e melancólico àquela região. As vozes, ruídos que surgiam entre os galhos e folhagens acompanhadas de silhuetas proporcionadas pela lua cheia, deixavam aquele homem em prantos. O homem aquele que não tinha um deus, agora rezava, implorava, recorria a qualquer coisa ou entidade para ainda ter consigo o pouco que lhe restava, o direito a vida.

Direito a vida, direito que não era mais seu. Aos poucos a vida que o destino o proporcionou tomou a sua personalidade, sua privacidade, sua intimidade, liberdade e o que ser a vida senão o conjunto desses direitos? Ele já estava morto mas não sabia. Um pobre escravo fugitivo que vagava pela área mais faminta da região, faminta de alma, de sonhos, de esperanças. A fome o tomava, dor e cansaço já se instalavam pelo seu corpo, e o medo, desespero, destruíra sua mente. Então sem mais esperanças e sonhos, o homem se ajoelha, sangrando, suando, e consegue observar as criaturas que habitam aquele local se aproximarem para se alimentar da última coisa que lhe restava, a alma, essa mesma que deslizou pelo seu corpo, aos poucos, juntando-se às outras almas que viviam por ali.

Um comentário:

  1. Caralho, cara. Caprichou nos detalhes, consegui me imaginar dentro da floresta, e por tudo que o personagem passou, até da sua alma indo embora do seu corpo. Parabéns!

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